Quando a HumanTrack ainda cabia num documento e numa lista de coisas para construir, nós tomamos uma decisão que, vista de fora, parecia o caminho mais lento possível. Em vez de começar pela camada que todo mundo geralmente começa, nós escolhemos passar esse tempo num trabalho bem menos vistoso, que era reunir instrumentos validados mas ainda não acessíveis, acertar a correção de cada um, respeitar estrutura fatorial e norma, e montar uma base longitudinal capaz de guardar a trajetória de cada paciente de forma comparável ao longo do tempo. Para, assim, tornar possível entregar tudo o que uma psicóloga precisa para a sua clínica e para o cuidado que oferece aos seus pacientes.
Naquele momento parecia contraintuitivo adiar a parte que chamava atenção para cuidar da fundação, e ainda assim foi essa ordem que tornou possível tudo o que a HumanTrack (e consequentemente, a Artemi) virou depois. E nós faríamos tudo exatamente nessa ordem de novo, porque o resultado nos surpreendeu muito: cada psicóloga que passou a usar a HumanTrack se encantou com o diferencial da nossa solução. Isso nos fez perceber que, na verdade, estávamos entregando aquilo que as psicólogas sentiam que precisavam havia muito tempo, mas que talvez não conseguissem nomear.
Por que começamos pela mensuração, e a IA foi sendo construída aos poucos
A neuropsicologia foi a minha porta de entrada para esse jeito de pensar. Foi ali que eu aprendi, na prática, que teste, medida e raciocínio clínico andam juntos, e que um número só ajuda de verdade quando você sabe de onde ele veio, o que ele mede e como comparar com o que veio antes. A mensuração é a base da psicologia como ciência, porque é medindo de forma comparável que a clínica passa a ter, além da leitura que a psicóloga já faz de cada encontro, algo que dá para conferir e acompanhar no tempo. Uma inteligência clínica que nasce dessa base lê o caso já com esse rigor embutido.
Essa formação me deixou com uma convicção que virou princípio de engenharia da HumanTrack, a de que dado clínico fiel não se improvisa, porque ou você coleta com procedência desde o primeiro dia, com o instrumento certo, correção que respeita todas as propriedades da medida, ou acumula texto solto que nenhuma inteligência lê bem depois. Foi por isso que a base veio antes, e é dela que sai a leitura que a Artemi faz hoje, apoiada em +200 instrumentos validados e curados por um conselho científico.
A ciência do cuidado baseado em mensuração dá base a essa aposta sem exagero.
Quando a psicóloga acompanha o progresso do paciente com instrumento aplicado de forma regular e usa esse retorno para ajustar o rumo, o efeito sobre a redução de sintomas existe e é real, embora modesto, com um tamanho de efeito pequeno na meta-análise mais abrangente sobre o tema (d = 0,15, de Jong et al., 2021).
O ganho também não se distribui por igual, já que se concentra justamente nos casos que estão saindo da rota esperada, que são os que mais se beneficiam de alguém perceber a tempo que algo não vai bem. Foi essa leitura sóbria da evidência, e não uma promessa entusiasmada, que nos convenceu a construir a fundação de dados antes de qualquer camada de IA.
O raciocínio inteiro dessa escolha o meu sócio e também cofundador da HumanTrack contou no texto sobre por que apostamos a HumanTrack inteira em measurement-based care.
A Artemi nasceu nos dados e se desenvolveu como analista desses dados
Gosto de contar a Artemi na ordem em que ela de fato cresceu, porque a história dela é a mesma história dessa fundação. Ela nasceu nos dados, quer dizer, começou lendo o que já estava estruturado e confiável, os instrumentos aplicados e a série que eles formavam ao longo do tempo. Depois se desenvolveu como analista desses dados, passando a cruzar instrumentos diferentes, a acompanhar Metas Terapêuticas e a apontar o que se movia e o que estava parado dentro de um acompanhamento. Agora, acabamos de lançar o nosso mais tão solicitado registro e tanscrição de sessão, onde a evolução também conta com cada detalhe do relato entre paciente e terapeuta.
Hoje a Artemi é a inteligência clínica que lê o caso completo do paciente, e é assim que a gente a apresenta publicamente, como a primeira Inteligência Clínica da América Latina.
Fase | O que ela lia | O que devolvia |
|---|---|---|
Nasceu nos dados | Os instrumentos aplicados e a série que eles formavam no tempo | A leitura de um escore no contexto de ponto de corte e norma |
Se desenvolveu como analista | Vários instrumentos cruzados e as Metas Terapêuticas do acompanhamento | O que melhorou, o que estagnou e o que merecia atenção |
Hoje, inteligência clínica | O caso completo do paciente | A evolução organizada, integrando dados objetivos e qualitativos com a fonte à mão, para a psicóloga decidir |
Nenhuma dessas fases apagou a anterior, e cada uma delas só foi possível porque a camada de baixo estava firme, que é a razão de insistirmos tanto na ordem. O que a Artemi é e o que ela não faz, eu contei em detalhe no texto dedicado a ela, para quem quiser o recorte da própria Artemi em vez do recorte da decisão de construção.
O que é, para mim, acompanhar a evolução do paciente no caso completo
Acompanhar a evolução do paciente no caso completo, para mim, tem um significado bem concreto. Hoje, quando eu abro um caso na plataforma, a Artemi:
transcreve e lê a evolução das sessões;
lê os instrumentos que foram aplicados (escalas, anamnese, entrevistas, entre outros);
Interpreta as anotações que realizo como profissional;
me ajuda a formular o caso;
acompanha as Metas Terapêuticas;
considera os diários e/ou RPDs que o paciente registrou;
e busca na literatura científica as evidências que cruzam com aquele caso (e agora, ela também conta com o
Nexopara isso, rs, mais uma inovação da HumanTrack).
Isso importa mais quando a sessão termina e bate a dúvida, "será que esse caminho tem respaldo mesmo?". Raramente sobra tempo, no meio da rotina, para eu ir atrás disso sozinha. É uma leitura daquele acompanhamento específico, com a origem de cada informação à mão para eu conferir antes de seguir.
O que me importa nisso não é substituir o que eu já aprendi e me desenvolvi (e vou continuar me desenvolvendo). Uma clínica experiente lê muito bem, de memória, o que aconteceu com um paciente que ela acompanha de perto, e ao mesmo tempo nenhuma memória humana consegue reter, de forma comparável e simultânea, dezenas de trajetórias, cada uma com meses de dados e de relato mudando de ritmo. Quando o assunto é combinar muitos dados de forma consistente ao longo do tempo, uma leitura formal reduz o tipo de erro que o juízo humano comete sob esse volume, e a evidência sobre isso é antiga na psicologia (Grove et al., 2000).
É esse o papel da Artemi, o de somar uma segunda fonte de leitura à que eu já faço, uma fonte que não passou pelos mesmos vieses e que puxa a trajetória inteira em vez de parar no último encontro. Escrevi a história de como a primeira IA clínica que começou na mensuração lê a evolução do paciente no artigo irmão desta semana, para quem quiser ver essa leitura de perto.
A virada que gostaríamos de ver na psicologia brasileira
A evolução do paciente, quando fica visível e organizada, muda duas conversas ao mesmo tempo, e são elas que compõem a virada que gostaríamos de ver na nossa psicologia. A primeira é com o próprio paciente, porque o progresso dele deixa de depender só da sensação de quem está na sala e passa a ter uma forma que dá para olhar junto. A segunda é a conversa da profissão com a própria evidência, e é essa que tem me chamado atenção ultimamente.
Boa parte da nossa formação ainda trata acompanhar desfecho como burocracia, ou como uma desconfiança do próprio trabalho, quando é quase o oposto disso, porque faltou infraestrutura para uma prática que a ciência já recomenda há bastante tempo. Eu queria que a gente conversasse mais sobre isso sem defensividade, porque olhar para o que o dado mostra não tira nada da escuta, que segue sendo o centro do nosso trabalho.
Para quem já usa esse tipo de leitura e quer dar o passo de contar isso a quem senta na sua frente, escrevi sobre como contar ao paciente que você usa IA no acompanhamento.
A Artemi ajuda na leitura. A decisão continua sua
Desde o primeiro esboço da plataforma foi desenhado um limite junto com o restante do time, e ele cabe numa frase que eu repito até hoje. A Artemi irá ajuda na leitura, a decisão continuará do profissional.
A Resolução CFP 09/2024 trata a inteligência artificial como apoio ao trabalho da psicóloga, e não como quem decide no lugar dela, ao passo que o dever de sigilo do Código de Ética e a LGPD entram no desenho de onde o dado fica guardado e de quem tem acesso a ele. A Artemi levanta hipótese e aponta o que merece atenção, e para exatamente ali, porque quem conhece o caso e responde pela conduta é a psicóloga, que é quem sustenta o vínculo com o paciente.
Onde essa decisão vira rotina, hoje, na HumanTrack
Se você quiser ver isso funcionando num caso seu, dá para começar um teste por 14 dias grátis na HumanTrack e conversar com a Artemi sobre um acompanhamento real (ou fictício para testar), com a fonte rastreável e o limite ético já embutido. É onde a decisão que eu contei aqui sai da teoria e passa a operar na sua rotina.
Perguntas frequentes
Por que acreditamos que uma IA clínica precisa começar na mensuração?
Porque a maneira como uma inteligência lê depende de onde ela aprendeu a ler o contexto. Uma IA que nasceu da medida sabe o que um número quer dizer, o que é ponto de corte e norma, e o que significa um escore subir ou descer ao longo do tempo; e sabe, ainda, como correlacionar com os dados qualitativos de maneira eficiente, minimizando risco de alucinações. Uma inteligência montada sobre texto solto, sem essa base, tende a adivinhar o significado do dado em vez de reconhecê-lo. Começar pela mensuração foi o que deu à Artemi uma base confiável para ler o resto do caso depois.
O que a Artemi lê hoje quando acompanha um caso comigo, como psicóloga clínica?
Hoje ela lê a evolução do relato do paciente ao longo das sessões, os instrumentos aplicados, as Metas Terapêuticas e os diários, e busca na literatura científica as evidências que cruzam com aquele caso. Cada leitura vem com a origem à mão, para você conferir de onde veio antes de decidir qualquer coisa. Ela ajuda na leitura, a decisão continua sua.
Referências
de Jong, K., Conijn, J. M., Gallagher, R. A. V., Reshetnikova, A. S., Heij, M., & Lutz, M. C. (2021). Using progress feedback to improve outcomes and reduce drop-out, treatment duration, and deterioration: A multilevel meta-analysis. Clinical Psychology Review, 85, 102002. https://doi.org/10.1016/j.cpr.2021.102002
Grove, W. M., Zald, D. H., Lebow, B. S., Snitz, B. E., & Nelson, C. (2000). Clinical versus mechanical prediction: A meta-analysis. Psychological Assessment, 12(1), 19-30. https://doi.org/10.1037/1040-3590.12.1.19







