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Por que aceitei fazer parte do Conselho Científico da HumanTrack?

Por que aceitei fazer parte do Conselho Científico da HumanTrack?

O que levou o Dr. André Moreno a entrar para o Conselho Científico da HumanTrack

André Moreno

8 minutos

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Tenho alguma desconfiança quando tecnologia e saúde mental aparecem juntas na mesma frase. Não porque considero que a tecnologia tenha pouco a oferecer à prática clínica. Penso justamente o contrário. O problema é que a velocidade com que conseguimos criar novas ferramentas costuma ser maior do que aquela com que conseguimos responder a perguntas que deveriam vir antes: para que elas servem? Que problema clínico estamos tentando resolver? O que muda na qualidade do cuidado quando passamos a utilizá-las? Foi com questões como essas que comecei minhas conversas com a HumanTrack.


O que ajuda um terapeuta a tomar boas decisões?

Minha trajetória profissional sempre esteve muito próxima da clínica, do ensino e da discussão sobre como transformar conhecimento científico em melhores decisões terapêuticas. Ao longo dos anos, fui ficando cada vez mais interessado por uma questão aparentemente simples: o que ajuda um terapeuta a tomar boas decisões diante de uma pessoa real?

Temos hoje uma quantidade de conhecimento científico sobre psicoterapia que seria difícil imaginar algumas décadas atrás. Temos instrumentos de avaliação, protocolos, diretrizes clínicas, pesquisas sobre processos de mudança e uma capacidade crescente de acompanhar resultados.

Ainda assim, entre aquilo que sabemos e aquilo que acontece durante uma sessão existe um espaço considerável. É nesse espaço que o terapeuta precisa organizar informações, formular hipóteses, perceber padrões, acompanhar mudanças e decidir quando insistir em uma estratégia ou abandoná-la. Precisa perceber que uma intervenção aparentemente adequada não está funcionando ou que a melhora em um indicador não corresponde à mudança que esperava encontrar na vida do paciente.


O desafio de organizar informação clínica

Grande parte desse trabalho depende da capacidade de organizar informação clínica, e essa informação se perde com uma facilidade impressionante.

Ela fica distribuída entre aquilo que o paciente relata, aquilo que o terapeuta observa, instrumentos preenchidos ao longo do tratamento, anotações no prontuário, formulações clínicas e a própria memória do profissional.

Depois de algumas semanas de tratamento, reconhecer padrões nesse conjunto pode se tornar uma tarefa bastante difícil. É aqui que a tecnologia começa a me interessar. A possibilidade de coletar mais dados, por si só, me parece pouco relevante. Um terapeuta que já precisa administrar uma quantidade enorme de informação durante uma sessão dificilmente precisa de mais uma tela cheia de números para acompanhar. O desafio que considero interessante é utilizar tecnologia para tornar informações clinicamente relevantes mais disponíveis no momento em que uma decisão precisa ser tomada.

Isso exige pensar com cuidado sobre o que vale a pena medir, discutir como diferentes informações podem ser integradas e reconhecer os limites das medidas que utilizamos. Exige também preservar algo que considero fundamental: nenhuma ferramenta deveria competir com aquilo que acontece no encontro entre terapeuta e paciente. Uma tecnologia clínica útil precisa ampliar a capacidade do profissional de perceber o que está acontecendo e ajudá-lo a organizar informações que poderiam passar despercebidas. O terapeuta continua sendo responsável por compreender o contexto, construir hipóteses e tomar decisões. A ferramenta precisa ajudá-lo a fazer isso melhor.


O que encontrei na HumanTrack

Foi esse tipo de discussão que encontrei nas conversas com a equipe da HumanTrack. Encontrei uma empresa em crescimento, interessada em Prática Baseada em Evidências, mensuração de resultados e qualificação do cuidado em psicoterapia.

O que mais pesou na minha decisão, entretanto, foi a abertura para discutir o próprio produto e reconhecer que parte importante do que a HumanTrack poderá se tornar ainda está sendo construída. Para quem se interessa por ciência aplicada à prática clínica, essa abertura cria uma oportunidade especialmente interessante.


O papel de um Conselho Científico

Um Conselho Científico pode contribuir de diferentes maneiras. Pode revisar materiais, discutir evidências, participar de pesquisas, qualificar publicações e avaliar decisões já formuladas.

Tenho interesse em todas essas atividades, especialmente na possibilidade de aproximar pesquisa e prática clínica. Minha expectativa com a HumanTrack inclui também participar de discussões que acontecem antes de uma funcionalidade estar pronta. Quero ajudar a pensar quais problemas da prática clínica merecem ser transformados em problemas de produto, quais informações realmente ajudam um terapeuta a decidir melhor e como podemos acompanhar mudanças que sejam relevantes para pacientes e profissionais.


Aproximar ciência, clínica e tecnologia

Existe uma oportunidade científica importante nesse caminho. Quando acompanhamos sistematicamente o que acontece ao longo de uma psicoterapia, surgem perguntas que dificilmente apareceriam olhando apenas para o início e o final de um tratamento.

Podemos investigar o que mudou primeiro, quais processos acompanharam a melhora, quando uma trajetória começou a se desviar e por que pacientes aparentemente semelhantes responderam de maneiras diferentes. Essas perguntas interessam à pesquisa porque ajudam a compreender melhor os mecanismos e as trajetórias de mudança. Para mim, elas são ainda mais interessantes porque podem retornar à clínica e melhorar a próxima decisão que precisará ser tomada.

Foi essa possibilidade de aproximação entre clínica, ciência e desenvolvimento tecnológico que tornou o convite particularmente interessante. Não espero que a tecnologia resolva a complexidade da psicoterapia. Tenho interesse em participar da construção de ferramentas que nos permitam lidar melhor com parte dessa complexidade, organizar informações relevantes e produzir perguntas melhores sobre o que acontece durante um tratamento.

Ainda não sabemos exatamente quais serão essas ferramentas, e isso também contribuiu para minha decisão. Há algo intelectualmente estimulante em chegar enquanto algumas perguntas permanecem abertas e poder participar da construção dos caminhos que serão testados. É com essa disposição que passo a integrar o Conselho Científico da HumanTrack.

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