1. Introdução
Mensurar progresso terapêutico de forma clinicamente útil é um problema prático e metodológico: você precisa de indicadores que ajudem a decidir o que manter, ajustar ou mudar no plano terapêutico, sem reduzir a experiência do paciente a uma pontuação genérica. Medidas padronizadas (ex.: escalas para ansiedade como a GAD-7) são valiosas para rastrear dimensões globais e permitir comparação ao longo do tempo, mas podem falhar em capturar mudanças intra individuais específicas que o próprio paciente considera “resultado da terapia”.
A Goal Attainment Scaling (GAS) é um método para transformar esses conteúdos individuais em objetivos claros, específicos e individualizados em uma métrica padronizada, permitindo o monitoramento consistente do progresso de uma maneira personalizada. Neste guia, você verá: o que é GAS e como surgiu; para que serve na psicoterapia; o que a literatura descreve sobre evidências e propriedades psicométricas; um protocolo enxuto de aplicação; como interpretar resultados e tomar melhores decisões; quando usar GAS versus escalas padronizadas; e como integrar GAS ao Measurement-Based Care (MBC).
2. O Que É o Goal Attainment Scaling (GAS)
A Goal Attainment Scaling foi proposto por Thomas J. Kiresuk e Robert E. Sherman (1968) como um método geral de avaliação de programas e tratamentos em saúde mental, especialmente útil quando os objetivos são diversos e individualizados. A ideia central era selecionar os objetivos relevantes de cada pessoa, descrevê-los em uma escala graduada de desfechos possíveis e, depois, acompanhar o quanto esses objetivos foram atingidos.
2.1. Definição: mensuração idiográfica padronizada
Na prática, a GAS é uma forma de mensuração idiográfica padronizada: idiográfica porque o conteúdo do objetivo é personalizado (depende do paciente), e padronizada porque a avaliação do atingimento é feita em uma estrutura comum de pontuação. Cada objetivo é descrito em uma escala de cinco níveis, tipicamente de -2 a +2, em que 0 geralmente representa o resultado esperado (a meta), valores negativos indicam desempenho abaixo do esperado e valores positivos indicam desempenho acima do esperado.
2.2. Estrutura da escala (-2 a +2)
Uma forma didática de entender os níveis é:
-2 = muito abaixo do esperado;
-1 = abaixo do esperado;
0 = esperado;
+1 = acima do esperado;
+2 = muito acima do esperado.
O ponto crucial não é “dar uma nota” propriamente dita, mas construir níveis com descrições comportamentais-alvo claras (o que muda de um nível para o outro) para que a(o) profissional e o(a) paciente possam reavaliar com consistência ao longo do tempo.
2.3. Idiográfico vs nomotético
Nomotético: mede com as mesmas perguntas para todas as pessoas, favorecendo comparação com normas e categorias de gravidade.
Idiográfico: mede mudança em parâmetros relevantes para um indivíduo, comparando a pessoa com ela mesma (baseline → acompanhamento).
2.4. Aplicações além da psicoterapia
Embora muito usada em reabilitação e outras áreas, o que nos interessa aqui é que a GAS é bastante adaptável, serve quando você quer mensurar o que importa para aquela pessoa, de modo estruturado e rastreável, inclusive em contextos clínicos com heterogeneidade de objetivos.
2.5. Para que serve a GAS na Psicoterapia
Na psicoterapia, a GAS serve para operacionalizar os objetivos terapêuticos e monitorar o progresso, delineando metas específicas, com linguagem comum entre terapeuta e paciente. Ela é especialmente útil quando os objetivos são funcionais e contextualizados (rotina, comportamento, relações, autocuidado, exposição, habilidades), ou quando queremos acompanhar outros fatores para além da intensidade e frequência de sintomas.
1) Mensurar progresso com objetivos individualizados
O ganho clínico aqui é transformar objetivos (às vezes vagos) em descrições mensuráveis e revisadas. Em vez de definir, em termos abrangentes, o que significa uma melhora clinicamente significativa para aquele paciente, você constrói o que realmente significa melhorar em “degraus” mais claros, específicos e alcançáveis. Isso ajuda a reduzir possível ambiguidade, direciona melhor o alinhamento de expectativas e oferece um norte de verdade ao tratamento.
2) Complemento a escalas padronizadas
A GAS é desenhada para complementar escalas que medem sintomas, funcionamento e processos terapêuticos, para assim capturar o progresso do paciente como um todo, e de verdade; ela agrega como uma camada de mensuração centrada em metas pessoais e individualizadas.
3) Engajamento e colaboração terapêutica
Torna o processo terapêutico mais colaborativo e o paciente tende a se engajar mais ativamente durante o tratamento. Pode-se dizer que a GAS cria um ambiente de “co-construção:, onde os objetivos são definidos juntamente com o paciente, e isso tende a aumentar a relevância percebida da mensuração e a adesão ao plano de mudança. Na prática, ela ajuda a manter o feedback clínico com o foco no que realmente importa para a melhora acontecer.
2.6. O Papel da GAS no Raciocínio Clínico do MBC (Measurement-Based Care)
No MBC, a lógica é coletar dados, compartilhar com o paciente e agir a partir do que os dados mostram. A GAS pode ser o componente idiográfico desse sistema, complementando as medidas com perspectiva nomotéticas, especialmente quando você precisa de uma leitura mais fiel do progresso em objetivos intra individuais.
2.7. Quando NÃO usar
Evite o uso da GAS como ferramenta central em processos de triagem/diagnóstico, em crise aguda (quando o foco é estabilização), ou quando paciente não consegue compreender/participar da construção dos níveis.
3. Propriedades Psicométricas e Evidências
A literatura sobre a GAS destaca que ela não deve ser considerada uma "escala" padronizada, mas sim uma metodologia heterogênea para a construção de escalas personalizadas. Devido a essa natureza idiossincrática, onde cada paciente possui seu próprio conjunto de itens e critérios, a avaliação de suas propriedades psicométricas (validade, confiabilidade e responsividade) apresenta desafios únicos e difere radicalmente da psicometria clássica aplicada a instrumentos de itens definidos. A qualidade da medida depende diretamente do rigor metodológico aplicado na definição das metas e dos níveis de resultado, variando conforme a competência e o treinamento de quem a aplica.
Quando aplicada de maneira criteriosa, a GAS tende a apresentar um bom desempenho psicométrico dentro do seu contexto. A confiabilidade é boa, com alta concordância entre avaliadores (ICC > 0,90), desde que as metas sejam bem definidas e os avaliadores treinados, sendo recomendada, no âmbito da pesquisa, a verificação por pares para reduzir vieses. Em termos de validade, destaca-se pela forte validade de conteúdo, já que as metas são construídas a partir do que é clinicamente relevante para o paciente; as correlações baixas a moderadas com escalas globais são esperadas e refletem seu foco em mudanças específicas. O seu diferencial está na responsividade, pois a GAS é altamente sensível a mudanças clínicas sutis, evitando efeitos de piso e teto e permitindo o registro de progressos aumentados ao longo do tratamento.
Embora haja uma grande variabilidade na literatura a respeito do assunto, há revisões sistemáticas e estudos clínicos apontando que a GAS demonstra tamanhos de efeito (Effect Sizes - ES) robustos, frequentemente superiores aos de outras medidas de desfecho em reabilitação. Por exemplo, estudos com idosos e pacientes em reabilitação neurológica, a GAS mostrou alta responsividade com tamanhos de efeito chegando a 1.29 ou até superiores em comparações relativas, indicando uma capacidade aguçada de mensurar desfechos positivos do tratamento. A evidência sugere que, ao focar em metas individualizadas, a GAS oferece uma "eficiência relativa" maior do que instrumentos globais, capturando ganhos que são estatística e clinicamente relevantes para o paciente.
4. Como Aplicar GAS na Prática Clínica
A aplicação da GAS é um processo de construção colaborativa. Normalmente, as etapas são referidas como: identificação dos problemas atuais e das expectativas do paciente, brainstorm das metas, escolha das metas, transformação em metas claras, alcançáveis e mensuráveis (frequentemente o fluxograma SMART), definição dos níveis -2 a +2 e definição de data de revisão.
4.1. Momento ideal para introduzir GAS
Em psicoterapia, tende a funcionar melhor após as primeiras sessões de avaliação e de construção do vínculo terapêutico, quando já há compreensão compartilhada do problema e do foco terapêutico. Em crise aguda, priorize a estabilização; a GAS pode entrar depois, quando o paciente tiver condições de pactuar metas e acompanhar progresso.
4.2. Guia Passo a Passo:
Passo 1: Identificar problema/área de mudança colaborativamente
Objetivo: chegar a uma formulação operacional (“o que precisa mudar”), evitando metas impostas pelo terapeuta. Perguntas úteis tendem a focar em: “o que seria diferente na sua vida e como você se sentiria caso os problemas fossem embora hoje?”.
Passo 2: Transformar em metas SMART
A literatura tende a apresentar guias práticos descrevendo a recomendação de tornar a meta específica, mensurável, alcançável, relevante e com prazo definido. Para reduzir subjetividade, descreva comportamentos observáveis, frequência e/ou duração, e o horizonte temporal.
Passo 3: Construir escala de 5 níveis de realização
Estruture o objetivo em -2 a +2, definindo o que significa “abaixo”, “esperado” e “acima” do esperado. O valor clínico está em escrever níveis que sejam distinguíveis e realistas, evitando saltos grandes e descrições vagas.
Passo 4: Estabelecer baseline (onde está agora)
Registre o nível atual do paciente no momento da construção, para que o progresso seja comparável ao longo do tempo. Normalmente, é majoritariamente recomendado na literatura que a linha de base seja 0, -1 ou -2, a depender da meta e do perfil do paciente. Exemplo: Quando -1, podemos considerar que a meta a ser trabalhada para ser alcançada esteja no nível 0; quando 0, podemos delinear a meta de estabilização, mantendo e reforçando a linha de base.
Passo 5: Reavaliar e ajustar
Defina datas para revisão e reavalie de forma colaborativa, registrando o nível e discutindo potenciais obstáculos e próximos passos. Se a meta se mostrar irrealista ou irrelevante, ajuste; objetivos são instrumentos clínicos, não contratos rígidos.
4.3. Número recomendado de objetivos simultâneos
Em aplicações clínicas, muitos serviços trabalham com poucos objetivos por pessoa (por exemplo, 1 a 4) para manter foco e viabilidade. A recomendação prática, para iniciar, é começar com 1 ou 2 metas e expandir se houver clareza e adesão.
Para um roteiro completo, com checklists de qualidade e cuidados de implementação, veja o “protocolo detalhado passo a passo de aplicação”: /artigos/como-aplicar-gas-psicoterapia.
5. Interpretação e Uso Clínico dos Resultados
A interpretação da GAS é simples no nível do caso: o objetivo tem um nível atual (-2 a +2), e você observa o movimento ao longo do tempo. O ganho clínico vem de conectar o movimento a decisões terapêuticas, mantendo a interpretação colaborativa com o paciente.
5.1 Como calcular o escore
Para uso na rotina clínica, registre o nível atual de cada objetivo na data de revisão ou no momento em que o comportamento ocorre. Embora existam T-scores e ponderações para pesquisa e informações complementares, guias práticos descrevem que isso é opcional e depende do propósito do dado; para prática individual, o registro do nível frequentemente é suficiente.
5.2. Interpretar mudanças: progresso, estagnação, deterioração
Progresso: movimento ascendente (ex.: -2 → -1; -1 → 0) indica aproximação da meta.
Estagnação: ausência de mudança após um período razoável; aqui, há a necessidade de reajuste na estratégia do plano de tratamento.
Deterioração: movimento descendente indica piora no objetivo e pede investigação rápida (eventos estressores, desregulação, erro de calibragem do objetivo, mudança de contexto).
5.3. Como a GAS pode auxiliar em decisões clínicas
Use o resultado como um mecanismo de feedback com o paciente:
Manter o plano de tratamento quando há progresso de maneira sustentada.
Ajustar quando há sinais relevantes de estagnação (ex.: observar e atuar em contextos que são potenciais obstáculos, refinar o plano, ajustar a linha de base - nível 0).
Mudar quando há ausência de progresso persistente, deterioração relevante ou desalinhamento entre intervenção e o objetivo (revisar formulação, estratégia, comorbidades, barreiras contextuais).
6. GAS vs Escalas Padronizadas: Quando Usar Cada Uma
A escolha entre a GAS e escalas padronizadas não deveria ser “isso ou aquilo”. No geral, elas respondem perguntas diferentes: checklists de sintomas capturam mudança em domínios universais e permitem uma comparação mais fidedigna, enquanto a GAS captura mudanças em metas individuais e funcionais.
Você pode considerar utilizar a GAS quando:
O objetivo principal é altamente individualizado e funcional.;
Você precisa monitorar mudança em um comportamento específico relevante para aquela pessoa;
O tratamento envolve metas graduais (ex.: exposição, ativação comportamental, habilidades);
Você quer aumentar a colaboração por meio de metas que são construídas em conjunto;
Você precisa de um indicador de progresso que faça sentido naquele momento para o paciente.
Você pode considerar utilizar escalas padronizadas quando:
Você precisa rastrear sintomas universais e tendências gerais.
Você precisa comparar com normas ou usar pontos de corte clínicos para compreender a classificação daquele paciente (depende do instrumento; a confirmar para cada escala específica).
Você precisa de um indicador comum para auditoria/pesquisa/serviço.
Você quer monitorar risco de deterioração em sintomas amplos.
Integração das duas abordagens:
A combinação entre a GAS + escalas padronizadas costuma ser a opção mais informativa: GAS para metas individuais e uma escala padronizada para sintomas gerais. Isso reduz o risco de você concluir que “não houve melhora” quando houve melhora funcional relevante, ou o inverso.
7. Como isso funciona dentro do Measurement-Based Care (MBC)?
No MBC, o núcleo principal é o raciocínio clínico de transformar dados em decisões clínicas bem fundamentadas e relevantes, através de três pilares fundamentais: coletar, compartilhar e agir. A GAS pode ser usada como medida idiográfica dentro desse fluxo, complementando medidas nomotéticas.
7.1. GAS como componente idiográfico do MBC
A GAS encaixa no “Collect-Share-Act” ao permitir:
Coletar: registrar o nível atual do objetivo.
Compartilhar: revisar com o paciente o que mudou e o que travou.
Agir: ajustar as estratégias com base no que o objetivo revela (barreiras específicas, foco terapêutico, reestruturação da meta).
7.2. Feedback colaborativo
A revisão colaborativa é o ponto central e também extremamente importante. A GAS não é só uma métrica, mas uma estrutura de conversa clínica orientada por metas. Visualizar a evolução em uma linha do tempo (níveis -2 a +2) pode aumentar a clareza e o engajamento, sendo assim também coerente com princípios de feedback e monitoramento.
7.3. Ajuste de estratégias baseado em dados
Ao combinar a GAS com uma escala padronizada, você pode diferenciar: melhora funcional com sintomas ainda elevados; melhora sintomática com metas estagnadas; ou ausência de melhora em ambos (o que pede reavaliação mais ampla).
Perguntas Frequentes (FAQs)
1) O que é Goal Attainment Scaling (GAS)?
É um método para definir objetivos individualizados e medir o atingimento em uma escala padronizada de -2 a +2, permitindo acompanhar progresso em metas específicas.
2) GAS substitui escalas de sintomas?
Sim e não. No geral, as evidências sugerem que objetivos personalizados e escalas padronizadas capturam partes diferentes do resultado terapêutico; sendo o ideal a combinação de ambas.
3) Como eu aplico GAS na prática sem complicar a sessão?
Use um fluxo simples: definir 1–2 metas SMART, escrever níveis -2 a +2 com descrições claras e marcar uma data de revisão.
4) Com que frequência devo revisar os objetivos?
Há fluxogramas que recomendam definir uma data de revisão, mas a frequência vai depender de cada caso e de quem estará preenchendo naquele momento.
5) O que fazer se não houver progresso na GAS?
Trate como dado clínico: revise as barreirasrelevantes, atualize a meta (nível 0), ajuste a estratégia e, se necessário, reformule o foco terapêutico.
Referências
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Turner-Stokes, L. (2009). Goal Attainment Scaling (GAS) in Rehabilitation: A practical guide. King's College London.







