Measurement-Based Care

Por que apostamos a HumanTrack inteira em Measurement-Based Care

Por que apostamos a HumanTrack inteira em Measurement-Based Care

A história por trás da aposta da HumanTrack em Measurement-Based Care e por que mensurar progresso se tornou o centro da plataforma.

Vinicius Gabriel

8 minutos

Glowing red light forming a triangle on a dark background.

Em dezembro de 2023, eu estava num processo de terapia e me peguei com uma pergunta: "Será que eu estava realmente melhorando?", não é que eu não sentia melhora, mas estava sentindo falta de conseguir deixar mais palpável essa compreensão e comprovar pra mim mesmo.

Não era desconfiança. Era curiosidade ou a falta de algo mais visual, visto que tenho um perfil mais analítico. De tempos em tempos ele voltava a perguntar sobre as mesmas questões que a gente vinha trabalhando, e eu reparava que boa parte do meu "acho que estou melhor" dependia da memória daquele dia, do humor daquela semana, do quanto eu lembrava de como estava três meses antes, até mesmo pouco dias antes. Memória pra esse tipo de coisa, é uma fonte cheia de viés.

Comentei isso com o Murilo Lima, num daqueles papos que começam sem pretensão nenhuma e ele demonstrou as mesmas inquietações. Logo depois levei a inquietação pra Natália Mattioli (que, diferente de mim, é psicóloga e neuropsicóloga) e foi ela que me mostrou que eu tinha esbarrado em um campo inteiro: a psicometria e as escalas padronizadas que existem justamente pra dar alguma objetividade a perguntas como a minha.

Foi dessa conversa entre nós três que a HumanTrack nasceu. Não de uma ideia de produto. De uma pergunta que eu não conseguia responder sobre a minha própria terapia.

A ideia que já existia (só que não por aqui)

O nome técnico disso é Measurement-Based Care (MBC). Em uma frase: é usar instrumentos validados, de forma rotineira, pra acompanhar o progresso do paciente ao longo do tratamento e trazer esse dado pra dentro da clínica, pra dentro da conversa, em vez de deixá-lo parado num relatório que ninguém abre.

Não vou me alongar no "o que é" e no "como fazer". A Natália e o Bruno Damásio já escreveram sobre isso com uma profundidade que eu não teria como alcançar nesses artigos:

Este texto é sobre outra coisa: por que a gente decidiu apostar a empresa inteira nisso.

E aqui está o que me intrigou desde o começo. Em sistemas de saúde organizados em torno de evidência, acompanhar progresso com instrumentos é parte da rotina clínica (em alguns lugares, virou até requisito por lei). No Brasil, não (ainda eu espero). A psicologia clínica brasileira foi construída sobre outras tradições (a psicanálise tem um peso enorme na nossa formação e na nossa cultura), e a prática de mensuração sistemática nunca botou raiz por aqui da mesma forma.

Não estou dizendo que uma abordagem é certa e a outra é errada. MBC não briga com abordagem nenhuma. Dá pra acompanhar progresso num processo psicanalítico, cognitivo, comportamental, no que for. A mensuração é uma camada a mais, não troca o método de ninguém. O que falta no Brasil não é a "terapia certa", é o hábito de olhar pro dado do próprio paciente ao longo do tempo. Isso é uma lacuna, não um defeito de quem clinica.

Ou seja: a gente não escolheu construir pra um mercado pronto. Escolheu construir pra um hábito que ainda está nascendo. Do ponto de vista de negócio isso é questionável e desafiador (pedir pro ecossistema mudar de comportamento antes de comprar qualquer coisa é a venda mais cara e mais lenta que existe). A gente fez a conta e topou mesmo assim, porque a lacuna era real e ninguém estava ocupando ela com a seriedade que ela pede e queremos mais do que ninguém que o cuidado baseado em mensuração se popularize no Brasil.

Medir não é desconfiar do psicólogo. É o contrário.

Uma objeção que escutamos bastante é alguma versão de "mas eu já sei como meu paciente está". E é compreensível de onde ela vem, soa como se a gente quisesse enfiar uma régua burocrática no meio de uma relação que é, antes de tudo, humana.

Só que não é régua pra vigiar ninguém. É instrumento pra enxergar melhor.

Penso no exame de sangue. O resultado não substitui o médico nem desautoriza o julgamento dele, entrega uma informação que o olho clínico sozinho não alcança, e que só faz sentido porque existe uma faixa de referência ao lado do número.

Acompanhar progresso em terapia segue a mesma lógica. Não é trocar a escuta por planilha. É dar à escuta um instrumento a mais, que percebe mais cedo quando um caso estagnou, que ajuda a conversar com o paciente a partir de algo concreto, e que não deixa a gente depender só da memória (a do paciente e a do terapeuta) pra saber de onde aquela pessoa partiu.

Mas isso não reduz o paciente a um número?

Essa é objeção que eu mais respeito, e que frequentemente escutaos aqui também. Pegar uma pessoa inteira e espremer num escore soa quase que violento. Se fosse isso que a gente estivesse fazendo, eu também seria contra.

Só que o número não é a pessoa. Ele é um recorte de uma dimensão, num momento. Ninguém confunde o que está no termômetro com o paciente. A temperatura é uma informação sobre ele, não é ele. Com uma escala é igual: ela não diz quem a pessoa é, diz como ela respondeu àquelas perguntas, naquele dia.

E tem uma inversão aqui que eu demorei pra enxergar. A maior parte dos instrumentos que a gente usa é de autorrelato: quem responde é o próprio paciente. A escala não troca a subjetividade dele por um número frio, ela dá a essa subjetividade uma forma de aparecer e de ser acompanhada ao longo do tempo. É a voz do paciente, estruturada. Não no lugar dela.

E se for bem usado, o número não fecha a conversa, ele abre. Um escore que mudou (ou que teimou em não mudar) é um convite pra perguntar "o que aconteceu esse mês?". Ele aponta pra onde olhar. Quem escuta e dá sentido é o profissional, com a pessoa ali na frente.


A tirania do dado (e por que a gente foge dela)

Tem um risco no caminho oposto, e ele é tão sério quanto ignorar o dado: achar que o dado decide tudo.

O Bruno Damásio tem uma expressão pra isso que eu adotei após ouvir uma palestra dele: a "tirania do dado". É quando o escore deixa de ser uma informação e vira um veredito, como se um número numa escala pudesse sozinho dizer se uma pessoa está bem ou se uma terapia está dando certo. E ele não pode. E construir uma ferramenta que sugira que pode seria trair a própria ideia que nos trouxe até aqui.

O escore é parte de um todo. Ele entra na conversa junto com a expertise clínica do profissional, com o contexto daquela pessoa, com tudo que não cabe numa escala (e é muuuita coisa). O número aponta, levanta a mão e pede atenção pra um lugar. Quem lê, interpreta e decide é o profissional, não o gráfico.

Talvez seja por isso que nós insistimos que a gente não está construindo um juiz. Estamos construindo um instrumento. E a diferença entre as duas coisas é o cuidado inteiro.


A parte difícil nunca foi a tecnologia

O problema nunca foi técnico. Construir o instrumento, calcular o escore, mostrar a evolução num gráfico, tudo isso é trabalho, mas é trabalho conhecido. O difícil é o outro lado: criar um hábito onde ele não existe, numa cultura clínica que não cresceu medindo, sem transformar a coisa em mais uma obrigação chata na rotina de quem já está sobrecarregado.

Tomamos decisões frequentes em acabar tendo que deixar alguma funcionalidade que poderia trazer mais profundidade as análises em prol de no momento facilitar a experiência do profissional que está usando a HumanTrack. Não é fácil pra nós tomarmos esse tipo de decisão, mas existe mais envolvido em criar uma solução do que oferecer funcionalidades e entregar profundidade.

A gente escolheu paciência. Construir devagar e certo, em vez de rápido e raso. Pra uma startup isso tem um custo real, mas é coerente com o que a gente diz acreditar, e eu não saberia defender o contrário com a cara limpa.


Por que o rigor não é decoração

Se a aposta era em medição séria, o rigor tinha que ser de verdade. Psicólogo percebe ciência de fachada na hora, e com razão.

O primeiro a comprar essa ideia de fora foi o Júlio Gonçalves. Ele entrou no nosso comitê científico um mês depois de a gente botar o MVP no ar, quando a HumanTrack ainda era mais promessa do que produto. Que um pesquisador topasse embarcar tão cedo, com tão pouco pra mostrar, foi um dos primeiros sinais de que a tese tinha pé (obrigado pela confiança Júlio).

Depois dele, a gente foi cercando o projeto de gente que sabe muito mais do que nós sobre isso. O Bruno Damásio (doutor em Psicologia pela UFRGS, uma das principais referências de psicometria na America Latina) ancora o rigor metodológico. O Halley Pontes traz o peso da pesquisa internacional. E a Natália, psicóloga e neuropsicóloga, mantém o pé na clínica no dia a dia do produto e tomando a frente como uma das co-fundadoras.

Eu sou o cara do produto e da tecnologia, o lastro científico da HumanTrack não é meu. É deles, e isso é proposital.


Quase meio milhão de vezes

A gente está chegando as 500 mil respostas a instrumentos dentro da plataforma. Cito esse número não por vaidade (depois de uma seção inteira sobre a tirania do dado, seria meio irônico), mas porque ele é, no fundo, um número sobre comportamento.

Quase 500 mil vezes alguém parou pra responder como estava, e alguém do outro lado decidiu olhar pra aquilo com seriedade.

Era disso que eu desconfiava lá em 2023 sem ter como provar: a lacuna era real, e tem gente disposta a ocupá-la junto com a gente. Esse número é a coisa mais concreta que eu tenho pra dizer que a aposta não era só minha, da Natália e do Murilo.


O que isso quer dizer, no fim

A pergunta que me trouxe até aqui era simples e meio ingênua: como saber se está funcionando? Acontece que ela não era só minha. É uma pergunta que a psicoterapia inteira pode responder melhor do que costuma responder hoje.

A gente não está tentando provar que terapia funciona, disso a ciência já deu conta, e sim, ela funciona. E medir sozinho também não é o que faz a terapia dar certo, não é mágica nem garantia. O que medir faz é tornar visível, caso a caso, um progresso que hoje depende quase só de intuição: deixar à vista o que melhora e o que não melhora, pra virar conversa. Rigor a serviço do cuidado, não no lugar dele.

É uma aposta longa, mas vamos nos tornar a referência em rigor científico em saúde no mental no Brasil e seguimos fortes com a missão de popularizar o cuidado baseado em mensuração, porque todo paciente merece ser bem cuidado.

Se quiser se aprofundar no cuidado baseado em mensuração, comece pelos textos da Natália e do Bruno aqui em cima. E se quiser ver como isso vira prática no dia a dia, a HumanTrack está em humantrack.io

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