Psicologia e IA

Vieses e Riscos da IA na Saúde Mental: Alucinação e Viés Algorítmico

Vieses e Riscos da IA na Saúde Mental: Alucinação e Viés Algorítmico

Uma análise dos principais riscos da IA na saúde mental, incluindo alucinações, vieses algorítmicos e respostas que parecem certas sem base confiável.

Natália Mattioli Abatti

10 minutos

milky way galaxy

Já aconteceu de você receber de uma IA uma resposta tão bem montada que custou perceber que estava errada? Vinha com a estrutura certa, o vocabulário técnico no lugar, às vezes um autor e um ano que pareciam encaixar, e só quando você foi conferir um detalhe é que a coisa desmontou. Esse intervalo entre a resposta parecer certa e ela ser certa é onde se concentram quase todos os riscos da inteligência artificial na clínica, e é sobre ele que este artigo trata.

A intenção aqui não é alimentar o medo nem fingir que os riscos invalidam a ferramenta. Quem conhece o risco de uma coisa consegue usá-la com responsabilidade, e quem só ouve a promessa se machuca quando ela falha. Vou separar quatro riscos técnicos que aparecem quando uma IA toca dado clínico e fechar com o que reduz cada um na prática. Se você quiser o enquadramento mais amplo antes, vale começar pelo guia sobre inteligência clínica e IA na saúde mental, que define a categoria.

Por que falar de risco é o que torna o uso responsável possível

Em materiais de marketing sobre tecnologia, há uma tentação de tratar risco como assunto que enfraquece o produto, algo a esconder atrás de uma promessa redonda. Eu acho que é o oposto. Só quem nomeia o limite consegue construir em volta dele, e isso é o que separa uma ferramenta séria de uma promessa vazia.

Vale lembrar que a psicóloga já trabalha com risco o tempo todo. Nenhum instrumento psicométrico é perfeito, todo escore tem erro de medida, e é por conhecer essas margens que dá pra usar um instrumento com critério em vez de tratá-lo como verdade absoluta. Com a IA é igual. A pergunta útil não é se ela erra, porque erra. É onde ela erra, com que cara o erro aparece e o que cada tipo de erro pede de cuidado. Os quatro riscos a seguir já foram documentados em pesquisa de saúde mental, ou decorrem de como esses sistemas funcionam por dentro, e cada um tem uma mitigação específica.

Risco 1: alucinação e fabricação de referência

O risco mais conhecido, e o mais documentado em saúde mental, é a fabricação de referência. A IA inventa uma fonte que não existe, ou cita uma que existe com detalhes errados, e apresenta as duas coisas com a mesma confiança de uma informação correta. Em pesquisa clínica isso é perigoso, porque a referência é o que separa uma afirmação respaldada de um palpite.

O que Linardon e McGowan documentaram em saúde mental

Dois estudos recentes mediram esse comportamento exatamente no terreno da saúde mental. Em 2023, McGowan e colegas pediram a um modelo de uso geral que ajudasse numa busca de literatura de psiquiatria, e numa dessas trocas o ChatGPT gerou 35 citações, das quais apenas 2 eram reais (McGowan et al., 2023). Em 2025, Linardon e colegas levaram isso pra um teste mais controlado e encontraram que, mesmo entre as referências reais que o modelo gerou, 64 de 141 (45,4%) traziam algum erro bibliográfico, com DOI incorreto à frente (Linardon et al., 2025). O risco, então, vai além da invenção pura. Inclui também a referência verdadeira com um detalhe errado que basta pra mandar quem confiou pro lugar errado.

O estudo de Linardon mostrou ainda que a invenção se concentra nos temas menos visíveis e mais especializados, justamente o terreno da clínica refinada. Eu desenvolvo esse achado e o que ele significa pra escolha de ferramenta no artigo sobre IA generalista versus IA clínica especializada. Aqui o ponto é mais geral: fabricar referência é um risco técnico real e medido, e não uma suspeita vaga.

Por que "alucinação" é um nome impreciso pro fenômeno

A palavra que pegou pra esse comportamento foi "alucinação", e os próprios autores de McGowan discutem por que ela é imprecisa (McGowan et al., 2023). Alucinar, no sentido clínico, é perceber algo que não está lá, um desvio de um funcionamento que normalmente acerta. O modelo não funciona assim. Ele faz exatamente o que foi construído pra fazer: gerar a sequência de texto mais plausível dado o que veio antes, sem nenhum compromisso embutido com a verdade do que produz.

Isso muda a leitura prática do risco. A referência inventada e a correta saem do mesmo processo, com a mesma fluência, e nada na cara da resposta sinaliza qual é qual. Verificar, então, não é cautela exagerada, é parte do uso.

Risco 2: viés algorítmico

O segundo risco é mais silencioso. Ele não aparece como um erro pontual que você flagra, mas como uma distorção sistemática embutida no que a ferramenta aprendeu. Um modelo aprende dos dados com que foi treinado, e se esses dados representam mal certas populações, o que ele devolve carrega essa representação ruim sem avisar.

Na saúde mental isso é particularmente sensível, porque a forma como sintoma, sofrimento e comportamento se expressam varia com cultura, gênero, raça, classe e contexto. Uma ferramenta treinada predominantemente em dados de uma população tende a ler com mais precisão quem se parece com essa população e com menos precisão quem foge dela. A scoping review de Ni e Jia, de 2025, lista o viés algorítmico entre os desafios recorrentes da IA em saúde mental, ao lado do risco de privacidade de dados (Ni & Jia, 2025), e a revisão de ética de Saeidnia e colegas, de 2024, coloca viés e equidade entre as seis considerações centrais do uso de IA na área (Saeidnia et al., 2024).

Pro contexto brasileiro é razoável supor que o ponto seja ainda mais agudo, porque os grandes modelos de uso geral são treinados em corpora majoritariamente em inglês, com pouca representação de português e de realidades clínicas brasileiras, e raramente passam por validação local que calibre isso. Na prática, uma resposta pode soar igualmente confiante pra uma paciente que o modelo "conhece" bem e pra uma que ele praticamente não viu, sem que a diferença de confiabilidade apareça. Por isso viés não se resolve só olhando a resposta. Ele pede saber sobre que dados a ferramenta foi construída.

Risco 3: o limite do dado faltante

O terceiro risco é o mais fácil de esquecer, justamente porque não é um erro. É um limite estrutural. Uma IA só lê o que existe registrado. Ela não tem acesso ao que ficou de fora do dado, e tudo o que não foi medido, anotado ou coletado simplesmente não entra na conta, por mais sofisticado que o modelo seja.

Na clínica, muito do que importa vive fora do que cabe num instrumento. O tom de voz que mudou, o assunto que a paciente evita, o que ela disse na porta saindo da sessão, o contexto de vida que não virou escore. A psicóloga lê tudo isso na sala. A IA não, porque trabalha sobre o registro estruturado, e o registro é sempre um recorte do que aconteceu. O risco aqui é a gente esquecer do que a ferramenta não está vendo.

Vale guardar que um dado faltante pode ser tão informativo quanto um presente, mas só pra quem está na sala. O silêncio sobre um tema, a escala que parou de ser respondida, a piora que não apareceu porque ninguém perguntou. Uma IA processa o que está registrado e não interpreta o que ficou de fora. Quem nota a ausência, formula a pergunta que falta e decide o que coletar a seguir é a psicóloga. Por isso a leitura da máquina entra como uma camada a mais sobre a mesa, nunca como o retrato completo.

Risco 4: confiança indevida

O quarto risco está na forma como a gente reage à máquina, e talvez por isso seja o mais difícil de controlar. Uma resposta articulada, fluente e segura passa uma sensação de competência que não tem relação nenhuma com a chance de ela estar certa, porque o modelo erra com a mesma desenvoltura com que acerta, e é essa desenvoltura que baixa a nossa guarda.

Isso conversa direto com os dois primeiros riscos. A referência fabricada de Linardon e McGowan vinha com a mesma cara de uma referência verdadeira, sem nenhum aviso (Linardon et al., 2025; McGowan et al., 2023), e o viés de treino também se apresenta como resposta normal. O que torna o erro perigoso é a ausência de qualquer sinal de incerteza por parte da ferramenta. Uma colega experiente, quando não tem certeza, hesita, qualifica, diz que precisaria conferir. Um modelo de uso geral preenche o vazio com a mesma fluência de sempre.

A defesa contra esse risco é menos técnica e mais de postura. É manter, diante de uma resposta de IA, o mesmo ceticismo metodológico que a psicóloga já aplica a um resultado de escala que destoa do que ela viu na sessão. A pergunta não é "isso soa convincente", é "em que isso se apoia e como eu confiro".

O que mitiga cada risco

Nomear o risco só vale a pena se vier acompanhado do que reduz cada um, e aqui os mesmos critérios que sustentam uma IA clínica confiável funcionam como mitigação ponto a ponto. São três condições, e valem pra qualquer ferramenta, não só pra HumanTrack.

Risco

O que é

O que reduz

Fabricação de referência

A IA inventa fonte ou erra detalhes, com a mesma confiança

Rastreabilidade da fonte

Viés algorítmico

Treino enviesado lê pior quem foge do padrão dominante

Transparência sobre os dados de treino

Dado faltante

A IA só lê o que foi registrado, não a ausência

Supervisão humana, que nota o que falta

Confiança indevida

A resposta fluente parece certa mesmo quando não é

Linguagem que admite incerteza

A primeira é rastreabilidade da fonte. Se você consegue ver de onde veio cada informação que a IA devolveu, qual instrumento, qual dado, qual referência, a fabricação deixa de passar despercebida, porque uma fonte inventada não tem rastro que se verifique. A segunda é linguagem que admite incerteza: a ferramenta sinaliza quando não tem base pra afirmar algo em vez de preencher o vazio com confiança, e esse sinal é a defesa direta contra a confiança indevida. A terceira é a transparência sobre os dados de treino e sobre os limites do modelo, que é o que permite avaliar viés e ter clareza de que a ferramenta só lê o que foi registrado.

É contra esses riscos que a Artemi, a inteligência clínica da HumanTrack, foi desenhada, com a fonte rastreável, a linguagem que admite incerteza e o limite ético por construção. Como transformar esses critérios num roteiro de verificação aplicável na frente de qualquer fornecedor é o assunto do artigo sobre como saber se uma IA clínica é confiável, e o desenho que impede a ferramenta de fechar diagnóstico ou recomendar medicação está no artigo sobre o que a IA na saúde mental não deve fazer.

A supervisão humana como condição, não como cortesia

Nenhum dos quatro riscos se resolve só com tecnologia melhor. O modelo pode ficar mais preciso, a fabricação pode cair, o treino pode diversificar, e ainda assim a leitura da ausência, a decisão sobre o caso e a responsabilidade ética continuam exigindo uma pessoa. A supervisão humana não é um adorno que se coloca por gentileza em cima de um sistema que já decidiria sozinho. É a condição que torna o uso legítimo.

A literatura recente é consistente nesse ponto. A scoping review de Ni e Jia revisou 36 estudos empíricos e concluiu que essas tecnologias foram usadas predominantemente como apoio, monitoramento e automanejo, e não como tratamento isolado, apontando a necessidade explícita de design ético e supervisão humana (Ni & Jia, 2025). A revisão de Saeidnia, sobre 51 artigos de ética de IA em saúde mental, coloca autonomia e agência humana entre as seis considerações centrais do uso (Saeidnia et al., 2024), e é esse princípio que mantém a decisão e a responsabilidade com a profissional.

No Brasil, esse arranjo conversa com a Resolução CFP 09/2024 e com a LGPD quando o assunto é o dado sensível do paciente, ambas apoiadas na premissa de que a responsabilidade pela decisão é de quem atende. A IA entra antes da decisão, organizando informação e sinalizando o que merece atenção. A psicóloga entra onde sempre esteve, lendo o que o dado não mostra e decidindo o que fazer com o que ele mostra. É essa divisão que mantém a ferramenta no lugar de copiloto.

Como a HumanTrack mitiga esses riscos com a Artemi

Os quatro riscos deste artigo são exatamente o que a HumanTrack desenhou a Artemi para reduzir. A inteligência clínica da HumanTrack devolve cada leitura com a fonte rastreável, usa linguagem que admite incerteza em vez de soar sempre confiante, e opera sobre instrumentos validados e os dados do próprio acompanhamento, não sobre um palpite estatístico da internet.

A supervisão é condição, não cortesia: a Artemi é copiloto, sinaliza o que merece atenção, e a leitura crítica e a decisão seguem com a psicóloga, dentro do que o CFP e a LGPD pedem.

Pra ver isso na prática, dá pra começar um teste gratuito da HumanTrack e acompanhar a Artemi operando com fonte rastreável e limite ético por desenho.

Perguntas frequentes

O que é "alucinação" de uma IA, e por que o nome é criticado?

É quando a IA produz uma informação que parece correta mas não tem base real, como uma referência inventada. O nome é criticado porque sugere uma falha excepcional, quando na verdade o modelo está fazendo o que foi construído pra fazer: gerar texto plausível sem compromisso embutido com a verdade. A referência inventada e a correta saem do mesmo processo, com a mesma fluência (McGowan et al., 2023).

A IA na saúde mental pode ser enviesada contra certos pacientes?

Pode, e esse é um risco documentado. Um modelo aprende dos dados com que foi treinado, e se certas populações estão sub-representadas nesses dados, a ferramenta tende a ler com menos precisão quem foge do padrão dominante, sem que a diferença apareça na resposta (Ni & Jia, 2025; Saeidnia et al., 2024). Por isso vale saber sobre que dados a ferramenta foi construída, não só olhar a resposta.

Conhecer esses riscos é motivo pra não usar IA na clínica?

Não. É motivo pra usar com critério. Os mesmos riscos têm mitigação conhecida: rastreabilidade da fonte, linguagem que admite incerteza, transparência sobre os dados e supervisão humana sobre a decisão. Conhecer o limite é o que permite confiar na ferramenta sem entregar a ela a decisão.

Referências

Linardon, J., Liu, C., Messer, M., Jarman, H. K., Anderson, C., McClure, Z., & Fuller-Tyszkiewicz, M. (2025). Influence of topic familiarity and prompt specificity on citation fabrication in mental health research using large language models: Experimental study. JMIR Mental Health, 12, e80371. https://doi.org/10.2196/80371

McGowan, A., Gui, Y., Dobbs, M., Shuster, S., Cotter, M., Selloni, A., Goodman, M., Srivastava, A., Cecchi, G. A., & Corcoran, C. M. (2023). ChatGPT and Bard exhibit spontaneous citation fabrication during psychiatry literature search. Psychiatry Research, 326, 115334. https://doi.org/10.1016/j.psychres.2023.115334

Ni, Y., & Jia, F. (2025). A scoping review of AI-driven digital interventions in mental health care: Mapping applications across screening, support, monitoring, prevention, and clinical education. Healthcare, 13(10), 1205. https://doi.org/10.3390/healthcare13101205

Saeidnia, H. R., Hashemi Fotami, S. G., Lund, B., & Ghiasi, N. (2024). Ethical considerations in artificial intelligence interventions for mental health and well-being: Ensuring responsible implementation and impact. Social Sciences, 13(7), 381. https://doi.org/10.3390/socsci13070381


Transforme sua prática clínica com dados

Aplique instrumentos validados, acompanhe a evolução dos seus pacientes e tome decisões baseadas em evidências. Tudo em um só lugar

14 dias grátis

Sem cartão

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

Acompanhe as novidades do Blog

Fique por dentro dos novos artigos, guias práticos e novidades sobre MBC e prática clínica baseada em evidências.

Respeitamos sua privacidade. Sem spam!

Experimente grátis por 14 dias

Acesse a plataforma completa, sem cartão de crédito. Veja como o HumanTrack pode transformar sua prática clínica

Experimente grátis por 14 dias

Acesse a plataforma completa, sem cartão de crédito. Veja como o HumanTrack pode transformar sua prática clínica

Experimente grátis por 14 dias

Acesse a plataforma completa, sem cartão de crédito. Veja como o HumanTrack pode transformar sua prática clínica