À medida que o Cuidado Baseado em Mensuração (Measurement-Based Care, MBC) ganha espaço na prática clínica, é natural que surjam dúvidas sobre suas fronteiras em relação à Avaliação Psicológica. Ambas envolvem o uso de instrumentos padronizados e dados psicométricos, mas partem de pressupostos, objetivos e éticas de aplicação profundamente distintos.
Compreender essa diferença é fundamental para que o profissional utilize o MBC de forma ética, tecnicamente correta e alinhada às resoluções do Conselho Federal de Psicologia (CFP) — e para que entenda por que o MBC não é uma avaliação psicológica disfarçada, mas sim uma prática complementar e contínua que potencializa o cuidado clínico.
O que é Avaliação Psicológica
A Avaliação Psicológica é um processo técnico e científico regulamentado pela Resolução CFP nº 9/2018, cujo objetivo é compreender e descrever fenômenos psicológicos por meio da integração de múltiplas fontes de dados: entrevistas, observações, testes psicológicos e escalas.
Ela exige formação específica, uso de instrumentos com parecer favorável do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI) e, geralmente, envolve a emissão de um documento psicológico (laudo, relatório ou parecer). Trata-se de um processo pontual, interpretativo e diagnóstico, geralmente delimitado no tempo e voltado à tomada de decisão profissional (seleção, perícia, diagnóstico clínico, avaliação de potencial, entre outros).
Em outras palavras: a Avaliação Psicológica é um evento, com início, meio e fim.
O que é Cuidado Baseado em Mensuração (MBC)
O Cuidado Baseado em Mensuração (Measurement-Based Care) é um processo contínuo de coleta sistemática de dados clínicos padronizados, utilizados para monitorar sintomas, funcionamento e processos terapêuticos ao longo do tempo.
Seu objetivo não é emitir um diagnóstico ou substituir o julgamento clínico, mas fornecer feedback contínuo sobre o estado do paciente, permitindo ajustes dinâmicos nas intervenções.
O MBC não depende exclusivamente de testes psicológicos restritos ao uso profissional do psicólogo; ele pode envolver escalas de autorrelato validadas, amplamente disponíveis na literatura científica, desde que utilizadas dentro de seu propósito original: o monitoramento clínico, e não a avaliação psicológica formal.
Portanto, se a Avaliação Psicológica busca entender o sujeito, o MBC busca acompanhar o sujeito.
Diferenças centrais entre Avaliação Psicológica e MBC
A partir do quadro abaixo, pode-se entender de maneira didática as semelhanças e diferenças entre a AP e o MBC:
Aspecto | Avaliação Psicológica (AP) | Cuidado Baseado em Mensuração (MBC) |
|---|---|---|
Natureza | Processo técnico regulamentado, pontual e diagnóstico | Processo clínico contínuo e longitudinal |
Finalidade | Diagnóstico, seleção, perícia, decisão profissional | Monitoramento de sintomas, funcionamento e processos |
Base legal | Regulamentado pelo CFP e SATEPSI | Não é uma avaliação, portanto não requer registro no SATEPSI |
Instrumentos | Testes psicológicos de uso restrito | Escalas e questionários clínicos validados |
Produto final | Documento psicológico (laudo, parecer, relatório) | Feedback clínico e decisão terapêutica |
Periodicidade | Aplicação pontual | Aplicações repetidas e comparativas |
Ênfase | Explicação e diagnóstico | Acompanhamento e intervenção |
As zonas de convergência entre Avaliação Psicológica e cuidado Baseado em Mensuração
Apesar das diferenças, Avaliação Psicológica e MBC compartilham princípios comuns:
Uso de instrumentos padronizados e validados cientificamente;
Interpretação clínica contextualizada;
Respeito à ética, confidencialidade e consentimento informado;
Responsabilidade técnica do profissional sobre o uso dos dados.
Ambas reconhecem que mensurar é uma forma de compreender — a diferença está no propósito da mensuração.
Enquanto a Avaliação Psicológica busca construir uma fotografia diagnóstica, o MBC constrói um filme em movimento, registrando a trajetória de melhora ou agravamento do paciente ao longo do tempo.
Implicações éticas e práticas
O uso ético do MBC exige que o profissional:
Informe ao paciente que os instrumentos aplicados não constituem avaliação psicológica;
Garanta o sigilo e a proteção dos dados, conforme a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD, 13.709/2018);
Utilize apenas escalas validadas e com respaldo empírico;
Interprete os resultados sempre dentro do contexto clínico, evitando diagnósticos automatizados ou conclusões prescritivas.
Esses cuidados são fundamentais para preservar o caráter colaborativo e não normativo do Cuidado Baseado em Mensuração.
O papel do psicólogo no Cuidado Baseado em Mensuração (MBC)
O MBC não reduz o papel do psicólogo; ao contrário, o expande. Ao incorporar mensuração contínua à prática clínica, o psicólogo ganha uma nova dimensão de raciocínio baseado em evidências.
Os dados não substituem a escuta — eles a refinam. A observação clínica continua sendo o centro do processo, mas agora amparada por evidências quantitativas que ajudam o terapeuta a ver o que antes ficava invisível: pequenas regressões, flutuações emocionais, variações na aliança terapêutica e respostas diferenciais às intervenções.
O MBC, portanto, não é uma técnica de mensuração — é uma filosofia clínica orientada pela evidência.
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A plataforma não realiza avaliação psicológica: ela oferece monitoramento longitudinal de sintomas, funcionamento e processos terapêuticos, com gráficos, relatórios e alertas automáticos de evolução clínica, tudo conforme as diretrizes da LGPD e os princípios do CFP.
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Referências
American Psychological Association. (2021). Guidelines for psychological practice in health care delivery systems. Washington, DC: Author.
Bordin, E. S. (1979). The generalizability of the psychoanalytic concept of the working alliance. Psychotherapy: Theory, Research & Practice, 16(3), 252–260.
Conselho Federal de Psicologia. (2018). Resolução CFP nº 9/2018: Estabelece diretrizes para a Avaliação Psicológica. Brasília: CFP.
Trivedi, M. H., et al. (2006). Evaluation of outcomes with citalopram for depression using measurement-based care in STAR*D: Implications for clinical practice. American Journal of Psychiatry, 163(1), 28–40.
Wampold, B. E., & Imel, Z. E. (2015). The great psychotherapy debate: The evidence for what makes psychotherapy work (2nd ed.). Routledge.









