Prática Clínica

Crenças nucleares na TCC: como monitorar e transformar esses dados em cuidado clínico

Crenças nucleares na TCC: como monitorar e transformar esses dados em cuidado clínico

O ICCN como recurso de avaliação e acompanhamento

Marcela Maria Bezerra

9 minutos

Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), compreender essas crenças ajuda o terapeuta a construir uma formulação de caso mais precisa e a identificar processos que podem estar contribuindo para a manutenção das dificuldades do paciente.

Mas como acompanhar algo tão profundo ao longo do tratamento? É possível monitorar crenças nucleares? E como interpretar os resultados sem reduzi-los a um número ou fazer com que o paciente se sinta definido por suas dificuldades?


O que são crenças nucleares e por que acompanhá-las?

Na perspectiva cognitiva de Beck, as cognições podem ser compreendidas em diferentes níveis. Enquanto os pensamentos automáticos são mais específicos e situacionais, as crenças nucleares são generalizadas e constituem entendimentos mais profundos e duradouros sobre si mesmo, os outros e o mundo. 

Essas crenças centrais ocupam um lugar importante na compreensão do sofrimento psicológico, pois são capazes de influenciar a forma como interpretamos os acontecimentos e reagimos emocional e comportamentalmente a eles. Elas podem assumir formas como:

  • “Sou incapaz.”

  • “Não sou digno de amor.”

  • “As pessoas são injustas.”

Acompanhar essas crenças ao longo da psicoterapia pode ajudar o profissional a:

  • compreender temas cognitivos recorrentes e relevantes para a formulação de caso;

  • evidenciar não somente as crenças nucleares desadaptativas, mas também as adaptativas, permitindo fortalecê-las ao longo do tratamento;

  • avaliar se a intensidade ou a centralidade de uma crença parece estar se modificando;

  • reconhecer flutuações associadas a períodos de estresse;

  • discutir com o paciente o progresso e possíveis necessidades de ajuste no tratamento.

O objetivo, portanto, não é simplesmente fazer uma crença “desaparecer”, mas compreender como ela participa da experiência do paciente e acompanhar o desenvolvimento e fortalecimento de formas mais flexíveis, realistas e adaptativas de interpretar a si mesmo, o outro e o mundo.

O ICCN como recurso de avaliação e acompanhamento

O Inventário de Crenças Centrais Negativas (ICCN), também denominado Negative Core Beliefs Inventory (NCBI), é um instrumento de autorrelato desenvolvido para avaliar crenças centrais negativas sobre si e sobre os outros, conforme a teoria cognitiva de Aaron T. Beck. 

Ele é composto por 32 itens, dos quais o paciente deve ler cada afirmativa e assinalar o quanto ela o descreve por meio de uma escala Likert de 4 pontos, que varia de 1 (“Não me descreve bem”) a 4 (“Descreve-me muito bem”). É um instrumento breve, levando aproximadamente 7 minutos para concluir o preenchimento. 

O inventário está organizado em dois fatores de segunda ordem, que avaliam crenças centrais negativas sobre si e sobre os outros, e quatro fatores de primeira ordem: 

-Desamparo/Inferioridade, relacionado à percepção de incompetência e inferioridade;

-Desamparo/Vulnerabilidade, associado à sensação de fragilidade, insegurança e dificuldade para enfrentar adversidades sozinho; 

-Desamor, que envolve crenças como a de não ser digno de afeto, expectativas de rejeição e dificuldade de receber amor ou amizade ; e

-Desvalor, caracterizado por crenças de fracasso, falta de valor pessoal ou de ser prejudicial aos outros. 

O ICCN nunca deverá ser utilizado isoladamente para estabelecer diagnósticos ou tomar decisões clínicas conclusivas. Sua aplicação deve ser articulada à formulação de caso, à observação clínica e a outros instrumentos pertinentes ao caso, permitindo auxiliar o terapeuta a organizar suas hipóteses clínicas.

Como interpretar os resultados do ICCN?

Como os estudos originais não estabeleceram pontos de corte validados, as faixas sugeridas pelos autores permitem situar o paciente em um espectro baixo, médio ou alto de crenças.

Os resultados podem orientar hipóteses clínicas: escores elevados em Desamor podem sugerir a investigação de rejeição e vínculos; em Desvalor, sentimentos de fracasso e de pouco valor pessoal; em Desamparo/Vulnerabilidade, dependência e insegurança; e em Desamparo/Inferioridade, comparação social, desempenho e autoeficácia.

É importante lembrar que um escore elevado não determina a gravidade do quadro, não confirma a presença de uma crença, nem explica isoladamente o sofrimento do paciente. Os resultados devem ser integrados às demais informações obtidas.

Como integrar os resultados à formulação de caso?

A utilidade clínica do instrumento aumenta quando seus resultados são relacionados às experiências concretas do paciente.

Imagine uma pessoa que apresenta respostas elevadas em itens relacionados à inferioridade. Em vez de concluir que ela “é incompetente”, o terapeuta pode investigar:

  • Em quais situações essa percepção costuma aparecer?

  • Que pensamentos automáticos surgem diante de erros, críticas ou comparações?

  • Que emoções acompanham esses pensamentos?

  • O paciente evita tarefas, oportunidades ou situações nas quais teme falhar?

  • Como essas respostas interferem nos objetivos e valores que ele deseja alcançar?

  • Que experiências parecem reforçar essa interpretação? Existem também experiências que apontam para uma compreensão diferente?

Esse tipo de investigação permite conectar os resultados do instrumento aos diferentes elementos do modelo cognitivo-comportamental, considerando os ciclos de manutenção específicos de cada pessoa.

Como compartilhar os resultados com o paciente?

Compartilhar os resultados pode favorecer a psicoeducação, o autoconhecimento e a participação ativa no tratamento. Para isso, é importante utilizar uma linguagem compreensível, evitar rótulos e deixar claro que o instrumento descreve padrões de resposta, não a identidade ou o valor da pessoa.

Uma possibilidade de devolutiva seria:

“Esse questionário nos ajuda a observar algumas ideias negativas que podem aparecer com mais frequência na maneira como você se percebe ou interpreta os outros. O resultado não define quem você é e também não significa, de forma alguma, que essas ideias sejam fatos. Ele apenas nos oferece pistas para investigarmos em quais situações elas aparecem, como afetam seus sentimentos e suas escolhas e o que podemos fazer para que você tenha mais liberdade diante delas.”

Após apresentar os resultados, o terapeuta pode convidar o paciente a refletir:

  • “Você reconhece esses temas em algumas situações da sua vida?”

  • “Algum resultado chamou sua atenção ou pareceu não combinar com a sua experiência?”

  • “Em que momentos essa ideia parece ficar mais forte?”

  • “Como ela influencia suas decisões, seus relacionamentos ou a forma como você se trata?”

  • “O que você gostaria de conseguir fazer de maneira diferente, mesmo quando essa crença aparece?”

  • Você acha que pensar dessa forma lhe aproxima ou lhe distancia dos seus valores?

Essa conversa também oferece uma oportunidade de verificar se a interpretação faz sentido para o paciente, nos permitindo atuar de forma realmente colaborativa.

Como monitorar as crenças ao longo do processo terapêutico?

Monitorar crenças nucleares não significa reaplicar o instrumento a cada sessão, mas construir um histórico que permita enxergar tendências. Alguns pontos orientam esse acompanhamento:

Estabelecer uma linha de base. Antes de iniciar um trabalho voltado à reestruturação de crenças centrais, aplicar o ICCN oferece um ponto de partida claro, contra o qual reaplicações futuras poderão ser comparadas.

Espaçar as reaplicações com sentido clínico. Como o instrumento apresenta boa estabilidade de curto prazo, reaplicá-lo em intervalos muito próximos tende a não capturar mudança real -o resultado tende a se repetir simplesmente porque pouco tempo se passou. Faz mais sentido vincular a reaplicação a marcos do tratamento (por exemplo, ao final de um bloco de intervenção voltado a determinada crença) do que a uma periodicidade fixa e arbitrária.

Observar o padrão entre as subescalas, não só o escore total. Um paciente pode apresentar queda em Desvalor enquanto Desamor permanece estável, sugerindo que um processo avançou, enquanto outro ainda pede atenção. Olhar exclusivamente para a pontuação geral pode esconder esse tipo de nuance.

Triangular com dados qualitativos. Cada reaplicação ganha mais sentido quando lida ao lado do relato do paciente, de registros de pensamentos entre sessões e da observação clínica direta.

Diferenciar flutuação situacional de mudança estrutural. Um escore mais alto após um período de estresse agudo (perda, conflito, sobrecarga) não indica necessariamente que a crença se tornou mais central, podendo refletir uma ativação temporária. Já uma mudança sustentada ao longo de várias aplicações, associada a mudanças de funcionamento relatadas pelo paciente, é um indício mais consistente de reestruturação.

Cuidados clínicos e éticos

Alguns cuidados são especialmente importantes:

  • Não deixar que o paciente confunda crença com fato. O instrumento avalia respostas relacionadas a crenças negativas; não comprova que as interpretações descritas sejam verdadeiras.

  • Evitar confrontação prematura. A investigação de crenças centrais pode despertar sofrimento significativo. O momento da intervenção deve considerar a aliança terapêutica, a capacidade de lidar com emoções e a disposição do paciente para examinar essas ideias.

  • Considerar o contexto. Experiências atuais, condições sociais, relações e situações concretas de ameaça ou violência precisam ser levadas em conta. Nem toda percepção negativa deve ser tratada como distorção cognitiva!

  • Interpretar mudanças com prudência. Variações nas pontuações devem ser examinadas junto a outras informações, sem presumir um significado clínico que o instrumento não estabeleceu.

  • Respeitar a participação do paciente. A escolha dos alvos terapêuticos e a forma de compartilhar os resultados devem ser colaborativas e compatíveis com suas necessidades.

Conclusão

Monitorar crenças nucleares pode contribuir para uma compreensão mais sistemática do processo terapêutico. O ICCN oferece uma maneira estruturada de investigar crenças negativas sobre si e sobre os outros, enquanto a entrevista clínica e a formulação de caso ajudam a compreender como esses padrões aparecem na experiência singular de cada paciente.

Quando os resultados são compartilhados de maneira cuidadosa e integrados ao acompanhamento longitudinal, eles podem favorecer a compreensão do funcionamento do paciente, orientar intervenções e apoiar a avaliação do progresso. Seu valor clínico, porém, não está no número isolado, mas na maneira como essa informação ajuda terapeuta e paciente a compreenderem o sofrimento e a construírem respostas mais flexíveis.

Na TCC, acompanhar crenças não significa medir a característica de uma pessoa. Significa investigar, com ela, ideias que podem estar limitando suas aspirações e avaliar como desenvolver formas mais realistas e adaptativas de se relacionar consigo, com os outros e com o mundo.

Para saber mais:

Referências

  • BECK, Judith S. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.

  • DOBSON, Deborah; DOBSON, Keith S. A terapia cognitivo-comportamental baseada em evidências. Porto Alegre: Artmed, 2010.

  • HOFMANN, Stefan G. Introdução à terapia cognitivo-comportamental contemporânea. Porto Alegre: Artmed, 2014.

  • Osmo, F., Wenzel, A., de Oliveira, I., & Menezes, I. (2018). The negative core beliefs inventory (NCBI): Development and Psychometric properties. Journal of Cognitive Psychotherapy, 32(1), 1-18. http:// dx. doi. org/ 10. 1891/ 0889- 8391. 32.1 

  • TOLIN, David F. Terapia cognitivo-comportamental na prática: guia completo para trabalhar com comportamentos, pensamentos e emoções. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2026.

  • WENZEL, Amy. Inovações em terapia cognitivo-comportamental: intervenções estratégicas para uma prática criativa. Porto Alegre: Artmed, 2018.

  • WRIGHT, Jesse H.; BROWN, Gregory K.; THASE, Michael E.; BASCO, Monica Ramirez. Aprendendo a terapia cognitivo-comportamental: um guia ilustrado. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.

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