Measurement-Based Care

Adesão ao Cuidado Baseado em Mensuração: como introduzir a mensuração sem romper o vínculo

Adesão ao Cuidado Baseado em Mensuração: como introduzir a mensuração sem romper o vínculo

Como introduzir a mensuração no processo terapêutico sem romper vínculo, aumentar resistência ou transformar escalas em tarefa burocrática.

Natália Mattioli Abatti

9 minutos

multicolored abstract painting

Boa parte do que se escreve sobre Cuidado Baseado em Mensuração responde a duas perguntas, se vale a pena medir e como rodar o ciclo no consultório. A pergunta que costuma travar a adoção, porém, é outra, e aparece num momento bem concreto, o de entregar a primeira escala para a paciente e imaginar o que ela vai pensar daquilo. O receio de que o instrumento soe burocrático, de que a relação esfrie, de que a pessoa se sinta avaliada em vez de acompanhada, é o que mais faz hesitar quem já se convenceu do método. Se a definição e o ciclo ainda estiverem soltos, vale partir do guia completo de Cuidado Baseado em Mensuração e do texto sobre como aplicar o ciclo na prática. Aqui eu quero ficar com a parte que decide a adesão, que é menos a escolha do instrumento e mais a forma de apresentá-lo e devolvê-lo.

A introdução do MBC é trabalho de vínculo, não só de técnica

Quando o MBC não ajuda uma paciente, o problema raramente está no instrumento escolhido, e sim no lugar que ele ocupa na relação. Foi isso que Solstad e colegas encontraram ao entrevistar em profundidade doze pacientes sobre a experiência de responder e discutir escalas ao longo da terapia, num estudo que combinou a gravação das sessões com recordação assistida por vídeo (Solstad et al., 2020). Um mesmo achado aparece em todos os relatos, e ele é direto, todas as pessoas precisavam saber que aquilo estava sendo usado de um jeito que fazia sentido. Quando a escala era respondida e nunca retomada nem reconhecida, a experiência passava a atrapalhar o processo em vez de ajudar. Não houve um único participante para quem responder sem retorno tenha sido neutro.

Por isso a introdução do MBC é menos uma questão técnica e mais uma questão de vínculo. Ao analisarem vinte e seis pares de clínico e paciente, Brooks Holliday e colegas observaram que o que distinguia os pares em que os dois valorizavam o método era um conjunto de práticas de relação, oferecer um motivo claro logo no começo e retomá-lo ao longo do tratamento, comentar o resultado a cada aplicação e ligar o escore a estratégias concretas que a paciente podia usar (Brooks Holliday et al., 2020). Apresentar um instrumento, nesse sentido, faz parte de construir a confiança, como qualquer outra coisa que depende de a paciente confiar para topar.

A linguagem na hora de apresentar o instrumento

Se a introdução é uma questão de vínculo, a linguagem conta muito, porque é por ela que a paciente decide se aquilo é só mais um procedimento ou parte do cuidado dela. Vale então separar as frases que costumam ajudar das que costumam atrapalhar.

Frases que costumam funcionar pra apresentar o instrumento

O que aparece com mais força nos pares que valorizam o MBC é um motivo dito com clareza, e dito mais de uma vez. Brooks Holliday e colegas notaram que esses clínicos não explicavam a razão de usar o instrumento só na primeira aplicação, eles repetiam esse porquê ao longo do tratamento, porque no começo a paciente recebe informação demais e nem sempre entende de primeira para que serve aquilo (Brooks Holliday et al., 2020). Apresentar a escala como uma forma de vocês duas acompanharem juntas se o caminho está ajudando, em vez de uma avaliação que a clínica faz da paciente, é o que costuma favorecer a adesão.

Funciona também ligar o número a algo concreto da vida ou do repertório dela. Nos mesmos pares, os clínicos conectavam o resultado a estratégias e habilidades que a paciente vinha treinando, o que transformava a escala em ponto de partida de uma conversa, e não em veredito. E perguntar se aquele resultado corresponde ao que ela vem sentindo coloca a paciente como alguém que lê o próprio processo junto com você, em vez de só receber uma conclusão pronta.

Frases a evitar (medicalização, frieza, sensação de avaliação)

Do outro lado, há um modo de usar o instrumento que fecha a conversa. No estudo de Solstad, parte dos pacientes descreveu como confrontador o momento em que o terapeuta apontava diretamente o que tinham respondido, citando item por item, e uma participante relatou ter sentido aquilo quase como se fosse usado contra ela, a ponto de pensar em não responder com honestidade na vez seguinte (Solstad et al., 2020). O que incomodava não era o dado em si, e sim a forma de cobrança com que ele era apresentado.

Some-se a isso a linguagem que medicaliza ou avalia. Apresentar a escala como um teste que mede quanto a paciente está bem, falar da pontuação como se fosse nota, ou explicar o instrumento de um jeito unilateral, como quem dá uma aula, tudo isso faz a pessoa se sentir examinada. Brooks Holliday e colegas observaram, aliás, que a explicação puramente expositiva costuma render menos do que uma condução por perguntas, em que a paciente participa de construir o sentido do resultado (Brooks Holliday et al., 2020).

Devolutiva do dado em sessão: como mostrar gráfico sem virar palestra

Mostrar o gráfico é a parte da devolutiva que mais ajuda, e também a que mais arrisca virar monólogo. Ajuda porque ver a própria curva ao longo das semanas dá à paciente uma referência que a memória sozinha não oferece, e Brooks Holliday e colegas encontraram justamente nos pares que usavam um gráfico para guiar a conversa uma compreensão mais firme do que estava acontecendo no tratamento (Brooks Holliday et al., 2020). O risco aparece quando o gráfico vira tela de apresentação e a clínica assume o lugar de quem expõe enquanto a paciente assiste.

O que esses autores observaram, e que vale levar para a sessão, é que a informação mais importante quase nunca estava no número em si, e sim na conversa sobre o que poderia explicar aquele número (Brooks Holliday et al., 2020). O gráfico, nesse uso, é ponto de partida, e a pergunta sobre o que aconteceu entre um ponto e outro rende mais do que qualquer interpretação entregue pronta. A síntese de Jonášová e colegas sobre o uso do monitoramento dentro da sessão mostra esse instrumento cumprindo funções variadas, dar informação clínica, facilitar a comunicação e fortalecer a relação, sem que o escore precise virar a palavra final (Jonášová et al., 2025). Transformar a devolutiva em palestra é um dos tropeços mais comuns dos primeiros meses, e eu o trato ao lado dos outros no texto sobre os erros mais frequentes na implementação do MBC.

Cadência que respeita o paciente (e por que mais não é melhor)

Existe uma tentação compreensível de que, se medir ajuda, medir mais ajudaria mais. A experiência dos pacientes não confirma isso. No estudo de Solstad, muitos pediam um uso flexível e pragmático do instrumento, e houve quem dissesse que aplicá-lo toda sessão podia ser demais, sobretudo quando as respostas vinham parecidas de uma vez para a outra, bastando nesses casos confirmar que seguia tudo igual e usar o tempo com o que precisava ser falado (Solstad et al., 2020). Houve quem apontasse que insistir sempre no estado atual podia desviar a sessão das causas mais profundas do sintoma.

O ponto não é simplesmente medir menos, e sim ajustar a cadência à pessoa e à pergunta clínica daquele caso. O que dá valor à medida é a regularidade combinada e a revisão que faz sentido, não o número bruto de aplicações, e Brooks Holliday e colegas reforçam que o que os pacientes valorizavam era discutir o resultado toda vez que o instrumento era aplicado, qualquer que fosse a frequência (Brooks Holliday et al., 2020). Sobre como definir esse intervalo conforme o instrumento e o tempo de tratamento, eu desenvolvo na parte de cadência do texto sobre como aplicar o ciclo.

Quando o paciente resiste ao instrumento

Mesmo com boa apresentação e cadência cuidadosa, vai haver paciente que resiste à escala, e a forma de ler essa resistência muda bastante o que se faz com ela.

Resistência como sinal clínico

A resistência ao instrumento costuma ser tratada como obstáculo a vencer, quando muitas vezes ela é material clínico. No estudo de Solstad, uma participante que reagiu mal a ser questionada sobre o que respondera reconheceu depois que os itens em jogo tocavam justamente em assuntos que ela vinha evitando (Solstad et al., 2020). Outra percebeu, ao discutir os resultados, que vinha subnotificando os próprios problemas como forma de negá-los, e descreveu a experiência como dolorosa e, ao mesmo tempo, importante, um ponto de virada que a ajudou a começar a responder com mais honestidade (Solstad et al., 2020). A recusa, a irritação ou a sensação de exposição diante da escala dizem algo sobre o momento da paciente, e ignorar esses sinais para salvar o protocolo é desperdiçar a informação que a resistência oferece.

Quando insistir, quando recuar

Daí a pergunta prática, quando insistir e quando recuar. O que a pesquisa sustenta é uma distinção entre o inegociável e o ajustável. Inegociável é o mínimo que Solstad e colegas identificaram, informar para que serve o instrumento e, em algum momento, retomar e reconhecer o que a paciente respondeu, porque é a ausência disso que torna a experiência prejudicial (Solstad et al., 2020). Ajustável é quase todo o resto, já que os autores encontraram pacientes que preferiam o uso direto e explícito do dado e outros que só o aproveitavam quando ele entrava de forma mais discreta, integrado à conversa sem citar item por item. Recuar, nesse caso, não significa abandonar a mensuração, e sim negociar a forma com a paciente, mudando o jeito ou o ritmo até achar o uso que faz sentido para ela. O que não se abre mão é do sentido do uso, e o formato é o que dá para ajustar caso a caso.

O que muda quando o paciente vê a própria evolução

Quando a devolutiva funciona, a adesão muda de natureza, porque a paciente deixa de ser só quem responde a escala e passa a ser quem acompanha a própria evolução. Nos relatos reunidos por Brooks Holliday e colegas, há paciente descrevendo que ver o progresso ao longo do tempo ajudava a saber se estava no caminho certo e sobre o que valia concentrar esforço naquele momento (Brooks Holliday et al., 2020). No estudo de Solstad, uma das pessoas chegou a dizer que se sentia coproprietária do próprio tratamento, participando mais por poder devolver ao terapeuta como as sessões estavam indo (Solstad et al., 2020). Os estudos não medem o que sustenta a adesão ao longo do tempo, mas faz sentido pensar que essa sensação de coautoria pese mais do que uma explicação inicial bem dada.

Acompanhar metas construídas com a paciente costuma tornar essa evolução mais fácil de enxergar para ela, porque o progresso aparece em termos que têm a ver com a vida dela, e não só com a severidade de um sintoma. Quem quiser explorar esse caminho encontra o detalhe no guia sobre como aplicar metas terapêuticas com a Goal Attainment Scaling, que segue essa mesma ideia de devolver à paciente a leitura do próprio progresso.

A HumanTrack e a adesão do paciente ao MBC

A paciente entra junto no processo quando o instrumento chega leve e a devolutiva faz sentido pra ela, e a infraestrutura pesa nesses dois pontos. Na HumanTrack, a coleta chega por WhatsApp ou link, sem a fricção do papel, e a plataforma pode mostrar à paciente o próprio gráfico de evolução ao final da resposta, o que transforma a escala em algo que vocês acompanham juntas em vez de uma nota.

A Artemi, a inteligência clínica treinada pro contexto de saúde mental, ajuda você a chegar na sessão com a leitura já organizada, pra que a conversa seja sobre o que o dado significa, não sobre garimpar o resultado. Você pode testar gratuitamente e enviar a primeira aplicação.

Pra ler com critério os dados que começam a chegar, o texto sobre como interpretar a evolução longitudinal ajuda a fechar o ciclo.

Perguntas frequentes

Como apresentar a escala sem que a paciente se sinta avaliada?

Oferecendo um motivo claro logo no começo e retomando esse porquê ao longo do tratamento, com a escala enquadrada como uma forma de acompanharem juntas se o caminho está ajudando. Ligar o resultado a algo concreto que ela vem trabalhando e checar se aquilo bate com o que ela sente ajuda a manter a leitura compartilhada, em vez de transformá-la em nota.

E se a paciente não quiser responder o instrumento?

A resistência costuma ser material clínico, não só obstáculo. Vale acolher o que ela aponta e, ao mesmo tempo, manter o mínimo inegociável, que é deixar claro para que serve o instrumento e retomar o que ela respondeu. A forma de usar é negociável, então dá para ajustar o ritmo ou tornar o uso mais discreto até encontrar o que faz sentido para ela.

Preciso mostrar o gráfico em toda sessão?

Não. O que dá valor à devolutiva é a revisão que faz sentido, não a frequência. Quando as respostas vêm parecidas, muitas vezes basta confirmar que segue estável e usar o tempo da sessão com o que precisa ser falado.

Referências

Brooks Holliday, S., Hepner, K. A., Farmer, C. M., Mahmud, A., Kimerling, R., Smith, B. N., & Rosen, C. (2020). Discussing measurement-based care with patients: An analysis of clinician-patient dyads. Psychotherapy Research. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/10503307.2020.1776413

Jonášová, K., Čevelíček, M., Doležal, P., & Řiháček, T. (2025). Psychotherapists' experience with in-session use of routine outcome monitoring: A qualitative meta-analysis. Administration and Policy in Mental Health and Mental Health Services Research, 52, 106–122. https://doi.org/10.1007/s10488-024-01348-4

Solstad, S. M., Kleiven, G. S., Castonguay, L. G., & Moltu, C. (2020). Clinical dilemmas of routine outcome monitoring and clinical feedback: A qualitative study of patient experiences. Psychotherapy Research. Advance online publication. https://doi.org/10.1080/10503307.2020.1788741

Transforme sua prática clínica com dados

Aplique instrumentos validados, acompanhe a evolução dos seus pacientes e tome decisões baseadas em evidências. Tudo em um só lugar

14 dias grátis

Sem cartão

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

  • Tutoriais

  • Artigos

  • Checklist

  • Instrumentos

  • Ferramentas

Acompanhe as novidades do Blog

Fique por dentro dos novos artigos, guias práticos e novidades sobre MBC e prática clínica baseada em evidências.

Respeitamos sua privacidade. Sem spam!

Experimente grátis por 14 dias

Acesse a plataforma completa, sem cartão de crédito. Veja como o HumanTrack pode transformar sua prática clínica

Experimente grátis por 14 dias

Acesse a plataforma completa, sem cartão de crédito. Veja como o HumanTrack pode transformar sua prática clínica

Experimente grátis por 14 dias

Acesse a plataforma completa, sem cartão de crédito. Veja como o HumanTrack pode transformar sua prática clínica